Nas últimas semanas, em concreto desde a chegada de Kim Jong-un ao poder, a Coreia do Norte tem surpreendido o mundo com alguns (aparentes) sinais de abertura: o anúncio do casamento do líder; a visita do patrão da Google; a permissão de entrada de telemóveis entrageiros no país; e hoje sabe-se que, pela primeira vez, um americano de origem coreana recebeu o estatuto de cidadão honorário da Coreia do Norte. Isto só para citar alguns exemplos.
Será que estamos a assistir ao nascimento de um novo capítulo no país mais secreto do mundo? Durante as próximas 24 horas, peço-vos que respondam a esta modesta sondagem! Obrigada!
A Coreia do Norte começou a permitir a entrada de telemóveis estrangeiros no país. Acabaram-se as longas filas (onde eu também estive) para deixar o telemóvel logo à entrada. A partir de agora, os turistas podem comprar um cartão SIM à entrada e usarem os seus próprios aparelhos para comunicarem com o exterior. Ou, então, podem alugar um telemóvel.
Mantêm-se, no entanto, algumas restrições: não vai ser possível ligar para números norte-coreanos (excepto hóteis em Pyongyang e embaixadas), nem tão pouco vai ser permitido ligar, por exemplo, para a Coreia do Sul. Mas é permitido ligar para os Estados Unidos e para o Japão.
E se, de repente, receberem uma chamada de um + 850, já sabem: fala do país mais (cada vez menos) secreto do mundo!
– Na Coreia do Sul, diz-se que quando a Samsung espirra, o país constipa-se. O editorial de hoje do Chosun Ilbo fala do assunto com preocupação. Um país que dependa tão fortemente de uma só empresa tem a sua economia assente numa base muito frágil. Quase tão frágil como a campanha da Samsung em Portugal (pronto, vá, eu tinha de falar nisto).
Chama-se Felix Abt, é suíço, tem 61 anos e direito a uma página na wikipédia, graças às relações privilegiadas no meio empresarial norte-coreano.
Felix viveu e trabalhou na Coreia do Norte entre 2002 e 2009 e ajudou a fundar a Pyongyang Business School. No ano passado, escreveu também o livro “A capitalist in North korea”.
Já foi entrevistado pelos principais órgãos de comunicação internacionais e agora surge mais esta entrevista na Minyanville, uma publicação online sobre assuntos económicos.
Felix conta como a sua conta no Linkedin foi bloqueada depois de ter associado um email norte-coreano ao seu percurso profissional. E é política habitual da empresa. Desta e de outras norte-americanas como a Google, Yahoo, Microsoft, Oracle, etc. Restringem o acesso a países e de países que estão na lista negra do Departamento do Tesouro norte-americano.
O mais interessante da entrevista está quase no fim. Felix diz que há uma classe média a emergir nas principais cidades norte-coreanas, que muitas pessoas estão envolvidas nalgum tipo de negócio e que, no ano passado, os agricultores de quintas estatais receberam a promessa de que poderão vender no mercado livre cerca de 30 por cento daquilo que produzirem. Garante que a abertura do governo para o comércio e para as parcerias internacionais tem aumentado nos últimos 10 anos, porém, os cortes (ainda) frequentes de energia, as estruturas deficitárias e, claro, as sanções internacionais ainda dificultam muito a acção de quem está disposto a investir no país mais fechado do mundo.
Se Abt gostaria de regressar à Coreia do Norte? Claro, “para apreciar boa comida” e estar com os amigos, mas sublinha que está feliz onde se encontra agora (Vietname). “Sete anos é muito tempo”.
Ainda nunca tinha falado por estas bandas do Gangnam Style. Esse epifenómeno da cultura coreana. E por isso peço perdão. Clemência!
O que é Oppa? O que é Gangnam?
Oppa é um termo que as mulheres coreanas usam quando se dirigem a um amigo ou irmão mais velho. Gangnam é a zona chique de Seul, a capital da Coreia do Sul. É o bairro onde muitos coreanos sonham viver, com restaurantes caros e lojas sofisticadas.
Gangnam é o bairro que o cantor/humorista PSY colocou nas bocas do mundo. O “Gangnam Style” tornou-se de tal forma viral que, em Outubro do ano passado, PSY teve direito a visitar a ONU e a ensinar, ao vivo e a cores, alguns passos da música ao secretário-geral, Ban Ki-moon. Sobretudo aquele que recria o trote do cavalo. Ban Ki-moon e PSY são agora, provavelmente, os dois coreanos mais famosos do mundo.
“Gangnam Style” era o passo que faltava para internacionalizar o pop coreano (conhecido como K-POP), mas também para colocar Gangnam no mapa da rota mundial da moda, do entretenimento e do consumo.
Depois, encontramos outras perspectivas de Gangnam em português, como esta de Luís Mah que escreve, durante este mês de Janeiro, a partir do bairro mais badalado do momento, sobre esta Coreia que entra em 2013 aos comandos de uma mulher: Park Geun-hye. Podem ler no blogue “O Retorno da Ásia”.
“Gangnam Style” entrou de tal forma no ouvido que muitos conseguem cantá-la em coreano, mas poucos devem saber o seu significado. Por isso, fica aqui a tradução do “Gangnam Style”.
Oppa tem o estilo de Gangnam
Estilo de Gangnam
Uma mulher que é quente e amorosa durante o dia
Uma mulher elegante que sabe apreciar uma boa chávena de café
Uma mulher cujo coração aquece quando chega a noite
Uma mulher desse tipo
Eu sou um homem
Um homem que é quente durante o dia, tal como tu
Um homem que toma o seu café todo o dia antes mesmo que ele arrefeça
Um homem cujo coração explode quando chega a noite
Esse tipo de homem
Bonita, adorável
Sim tu, ei, sim és tu, ei
Bonita, adorável
Sim tu, ei, sim és tu, ei
Agora vamos até o fim
Oppa tem o estilo de Gangnam,
O estilo de Gangnam
Oppa tem o estilo de Gangnam,
O estilo de Gangnam
Oppa tem o estilo de Gangnam
Eh mulher sexy
Oppa tem o estilo de Gangnam
Ehh mulher sexy, oh, oh
Eh, eh, eh, eh, eh, eh
Uma mulher que parece inocente, mas que quando joga, joga ‘pra valer
Uma mulher que sabe atirar o cabelo na hora H
Uma mulher que não se mostra, mas é mais sexy do que aquelas que mostram tudo por aí
Uma mulher sensual assim
Eu sou um homem
Um homem que parece educado, mas que quando tem que jogar, joga pra valer
Um homem que vai à loucura na hora H
Um homem que tem mais ideias do que músculos
Esse tipo de homem
Bonita, adorável
Sim tu, ei, sim és tu, ei
Bonita, adorável
Sim tu, ei, sim és tu, ei
Agora vamos até o fim
Oppa tem o estilo de Gangnam,
Estilo de Gangnam
Oppa tem o estilo de Gangnam,
Estilo de Gangnam
Oppa tem o estilo de Gangnam
Ehh mulher sexy
Oppa tem o estilo de Gangnam,
Ehh mulher sexy, oh, oh
Eh, eh, eh, eh, eh, eh
Acima do homem que corre está o homem que voa,
Baby baby,
Eu sou um homem que sabe uma coisa ou duas
Acima do homem que corre está o homem que voa,
Baby baby,
Eu sou o homem que sabe uma coisa ou duas
Tu sabes do que estou a falar
Oppa tem o estilo de Gangnam
Ehh mulher sexy
Oppa tem o estilo de Gangnam
Ehh mulher sexy
Oppa tem o estilo de Gangnam, eh eh
Oppa tem o estilo de Gangnam
E para um pequeno momento de comicidade, temos esta versão em português, dedicada ao primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho: Gamar com Style!
O “Querido Líder” morreu há um ano, mas a sua generosidade permanece eterna, dirão os apaixonados pelo regime.
Por estes dias, o ex-governador do Novo México (EUA), Bill Richardson, e Eric Schmidt, da Google, visitaram a Coreia do Norte e ficaram espantados quando um estudante da Universidade Kim Il-sung, em Pyongyang, lhes mostrou como conseguia aceder ao motor de busca da Google e pesquisar por “cidade de Nova Iorque”, ou entrar na Wikipédia, ou entrar na página da Cornell University, uma universidade norte-americana.
O mesmo computador, a partir do qual esse estudante entrava no fantástico mundo do world wide web, tinha uma etiqueta indicando tratar-se de um presente do já falecido líder Kim Jong-il.
Ao ler esta notícia – curioso! – lembrei-me de como visitei, tantas vezes, tantos lugares na Coreia do Norte onde era suposto não estar ninguém ou então estar e ficar surpreendido: “que surpresa!”. Mas sempre – SEMPRE – havia um discurso preparado, o melhor fato do roupeiro vestido, a limpeza acabada de fazer…
Na Coreia do Norte aprendi que nunca nada é suposto ser. Ou melhor, é porque sim.
Um satélite norte-coreano já está no espaço e o novo Kim é uma celebridade na Internet. Já está em primeiro lugar numa pesquisa online sobre a personalidade do ano da revista Time.
Ao mesmo tempo, é já na quarta-feira que a Coreia do Sul elege o sucessor de Lee Myung-bak.
Neste momento, dois candidatos disputam as presidenciais: Moon Jae-in, líder do PDU (Partido Democrático Unificado) e Park Geun-hye, do Partido Saenuri (actualmente no poder), filha do falecido ditador sul-coreano Park Chung-hee.
Geun-hye já foi apelidada de “Rainha das Eleições”. É deputada há 15 anos e, se ganhar as eleições – como indicam as sondagens -, será a primeira mulher presidente do país.
Tem 60 anos, nunca casou ou teve filhos e herda uma pesada herança do pai. A própria, é vista como a versão sul-coreana de Margareth Thatcher ou a Angela Merkel da Ásia. As reportagens que têm medido o pulso a estas eleições, indicam que não bastará ter uma mulher à frente dos destinos da nação para acabar com as fortes desigualdades entre homens e mulheres, que se verificam na Coreia do Sul.
Seja qual for o vencedor, ambos os candidatos querem refrear a política hostil de Lee Myung-bak para com o vizinho. Mas Park Geun-hye quer ir com mais calma, naquilo a que já chamou de Trustpolitik. Ou seja, uma política de consequências. Se, por exemplo, a Coreia do Norte lançar algum míssil, então a Coreia do Sul deve reagir de imediato. Se, por outro lado, mostrar verdadeiros sinais de reconciliação, a Coreia do Sul será a primeira a ajudar o vizinho.
Trazendo o assunto para mais perto de nós, a depender do resultado destas eleições está uma escola de pilotos na Base Aérea 11, em Beja, o que pode trazer 200 ou 300 famílias sul-coreanas para Beja. Quem o diz é o ministro da Defesa Nacional, Aguiar-Branco.
Também a merecer uma forte referência está o primeiro livro escrito por um português sobre a Coreia do Norte.
“Dentro do Segredo”, é o livro-viagem do escritor José Luís Peixoto, da editora Quetzal e é um livro que merece ser lido por quem já foi à Coreia do Norte, por quem nunca lá foi, por quem quer ir. É um livro que resulta de 15 dias de viagem no país mais secreto do mundo.
Para breve está prometida uma entrevista ao autor – a quem agradeço publicamente o livro e o autógrafo – a ser publicada na íntegra neste blogue.