Começo a ficar seriamente preocupada.
Os sul-coreanos, civis e militares, estão a sair para as ruas e a pedir que o governo responda de forma mais musculada ao ataque norte-coreano de terça-feira. O comandante dos fuzileiros navais sul-coreanos, Yoo Nak-jun, já prometeu uma resposta mil vezes maior para vingar a morte dos dois fuzileiros de 20 e 22 anos de idade.
Até o editorial do jornal sul-coreano Chosun Ilbo – tido como uma publicação próxima do partido conservador do presidente Lee Myung-bak – vem criticar a actuação do governo dizendo que a Coreia do Sul deve parar de agir como um tigre de papel. Basta ler este excerto:
Junta-se a isto a provocação. A Coreia do Norte tem repetido que está farta dos exercícios militares da Coreia do Sul e dos Estados Unidos, no Mar Amarelo. Amanhã, começa mais uma jornada de exercícios navais conjuntos que vão prolongar-se por quatro dias. Pyongyang avisa que as consequências dessas movimentações podem ser imprevisíveis.
Entretanto, a China está a tentar pôr água na fervura dizendo que o fundamental agora é controlar a situação e prevenir incidentes como o de terça-feira.
Resta saber se isto será suficiente para travar uma guerra, agora, cada vez mais iminente.
Pura irracionalidade. Em termos biológicos chama-se a isso “competição intra-especifíca”. Apesar de terem o neócortice mais desenvolvido da natureza, os seres humanos ainda são muito guiados por instintos básicos.
Qual a razão que levou os norte-coreanos a atacar?
Segundo algumas fontes da comunicação social japonesa, a recente demonstração de força das forças armadas da RPDC não passa de um golpe destinado a fortalecer a imagem do sucessor recém-designado de Kim Jong-il, o seu filho Kim Jong-un, a quem, na qualidade de general recém-empossado em funções, é atribuída a responsabilidade pela decisão de hostilizar o Sul.
Resumidamente: puseram o menino a brincar com fogo-de-artifício para impressionar a populaça.
A ver vamos se muito em breve não se arrepende de andar a brincar aos generais.
O Japão da sua parte está a postos.
Firme como o Fuji:
http://mdn.mainichi.jp/mdnnews/news/20101128p2a00m0na007000c.html
Meus melhores cumprimentos,
Luís Afonso, NBJ, Kyushu, Japão
De qual das Coreias o Japão será aliado em caso de guerra? O Japão tem algum tratado de aliança e ajuda mútua com alguma das Coreias? Se sim, desde quando?
Resumindo fez isso porque lhe apeteceu largar umas bombas certo?
Então porque razão a Coreia-Sul não respondeu ao ataque?
Já vi um documentário em que mostrou o relacionamento económico entre as Coreias nomeadamente fábricas em que um dava a mão de obra o outro seria o investidor e agora andam aos tiros.
Não sabia que se podiam largar bombas sobre outro país sem qualquer motivo mas ok.
Já não percebo nada disto…. 😦
Humberto Pereira, na política não existem aliados nem amigos; só existem instrumentos e inimigos.
Estimado Carlos:
Muito resumidamente.
O Japão neste contexto é, de certo modo, um ‘actor secundário’.
Pode sempre, e efeito de circunstâncias variáveis, ser ou não directamente envolvido num eventual conflito, consequência da sua posição geográfica e da natureza das relações que mantém com os demais eventuais beligerantes.
O Japão mantém forças armadas próprias num contexto jurídico-constitucional muito delicado — ver Artigo 9º da Constituição de 1947, que restringe a possibilidade do exercício soberano do respectivo direito de defesa, e está jurídica, política e militarmente na dependência dos E.U.A para efeitos de defesa da sua integridade territorial, com quem desde 1960 mantém uma aliança de importância vital para a região.
É uma situação deveras peculiar, porque no caso em questão, apesar de terem sido os Norte-Americanos a impor a desmilitarização do Japão no imediato pós-Guerra, são eles mesmos quem de há várias décadas vêm auxiliando e pressionando o Japão no sentido de um rearmamento total.
Ainda assim, a opinião pública no Japão, no seio da qual imperam posições fortemente polarizadas a respeito da questão da defesa nacional, tende a confiar no aliado americano para tudo o que possa acontecer. Naturalmente o elevado número de bases e imenso aparato militar Norte-Americano em território Japonês, coloca o país na linha de fogo dos inimigos do E.U.A na região (i.e. a RDPC)
Por outro lado, não obstante o Japão reconhecer somente o Estado Sul-Coreano como legítimo titular da soberania sobre a totalidade da península, a relação com ambas as Coreias é historicamente tensa, efeito de um passado conflituoso que pesa sobre a memória de ambas as nações (entendendo-se aqui a nação coreana como uma só ainda que politicamente cindida em dois estados) e agravada sobretudo pela experiência tardo-colonialista nipónica que oprimiu o Povo Coreano entre 1910 e 1945.
Em qualquer circunstância o Japão é aliado dos E.U.A. e apoia naturalmente a causa Sul-Coreana, observando com muita apreensão todos os movimentos da Coreia do Norte e temendo pelo deflagrar de um conflito que o possa afectar directamente.
Espero ter podido ajuda-lo a esclarecer a sua questão.
Meus cumprimentos,
Luís Afonso
“Resumindo fez isso porque lhe apeteceu largar umas bombas certo?
Então porque razão a Coreia-Sul não respondeu ao ataque?”
Caro Humberto:
Vamos por partes.
Como pretendia dizer no meu primeiro comentário a respeito desta matéria, o regime Norte-Coreano (assim supomos) não agiu porque lhe deu na ‘real gana’ ou sem objectivos mais complexos que a simples defesa da integridade do seu território.
Trata-se, segundo os especialistas que referia no dito comentário, de uma acção de tirocínio por parte do recém-promovido general Kim Jon-un — herdeiro da liderança do regime — destinada, em larga medida a providenciar experiência de liderança política e militar a este, por um lado, e por outro lado a fortalecer a sua posição no seio do regime e junto da população Norte-Coreana (Não basta ser filho e neto de quem é… há que ganhar respeitabilidade junto dos seus!) — sucintamente estão a escrever a “nova lenda” que irá dar a aura heróica a que o povo da Coreia do Norte se habituou a identificar nos seus líderes.
Ou seja, trata-se em larga medida de uma acção para ‘consumo interno’ — à semelhança dos lançamentos de mísseis balísticos que no passado, não obstante terem sido perfeitos fiascos do ponto de vista puramente técnico, foram anunciados internamente como gloriosos feitos atribuídos ao insuperável génio do Querido Líder. Estamos perante uma acção de propaganda minuciosamente planeada.
Naturalmente o Governo de Seoul não irá, nestas circunstâncias, fazer nada de estúpido sem necessidade:
uma guerra generalizada nesta região poderá acartar consequências catastróficas não apenas para os beligerantes e seus vizinhos como para o resto do Mundo.
Vamos aguardar os desenvolvimentos.
Meus melhores cumprimentos,
L.Afonso, Japão.
Estimada Rita:
Queira perdoar-me por abusar do espaço da sua caixa de comentários. Pareceu-me que ambos os leitores-comentadores esperavam algum ‘feed-back’ da minha parte. Espero ter ajudado a esclarecer as questões colocadas.
Meus mais amigáveis cumprimentos.
Caro Luís,
Não tem nada por que se desculpar. Este espaço é mesmo para usar e abusar. Já viu a tristeza que seria ter um blogue apenas para consumo próprio? O bom da vida é partilhar. E os seus comentários são sempre bastante esclarecedores. Eu é que lhe agradeço a ajuda!
Abraço,
Rita
Nesse caso há algo que não percebo: se a Coreia do Sul tem o Japão, os Estados Unidos da América e, possivelmente, a União Europeia como aliados, será que na Coreia do Norte não sabem que estão a cometer uma espécie de “suicídio” do regime? Ou será que este estilo “agarrem-me se não eu mato-o” tem outras motivações? Em suma, a Coreia do Norte de certeza que não quer uma guerra, mas sim uma paz que lhe agrade e para a alcançar estão dispostos a fazer a guerra. A pergunta, nesse caso, é: que condições a Coreia do Norte quer para manter a paz?
Estimado Carlos,
Acredito que os norte-coreanos queiram a paz, mas duvido que Kim Jong-il queira.
Aquilo que a Coreia do Norte diz que quer é poder desenvolver um programa nuclear para fins pacíficos e a assinatura de um Tratado de Paz, em vez do armistício assinado após a guerra da Coreia que mais não fez do que apenas dar tréguas às armas.
Já aquilo que a Coreia do Norte quer, mas não admite, é a ajuda de países terceiros – incluindo dos Estados Unidos – com energia e dinheiro para reanimar a débil indústria do país, estimular a agricultura e, no fundo, mostrar ao povo que o Estado olha por todos e que o regime funciona graças à visão socialista do líder. Ou seja, ajuda externa sem que algum norte-coreano desconfie. Seria a morte da ideologia Juche (auto-suficiência) desenhada por Kim Il-sung.
Mas esta 2ª parte da resposta é apenas a minha opinião. Assumidamente.
Abraço!
Sou, absolutamente, avesso à guerra. Mas tenho certeza de que, qualquer país, que tivesse o mínimo de respeito por si, faria o que a República Popular Democrática da Coréia está fazendo.
Primeiro, por que os Estados Unidos, a Inglaterra, a China, a India, o Paquistão, Rússia, podem se armar, com plenos direitos e os norte-coreanos, cubanos e outros povos não podem?
Por que o tratamento diferenciado?
Outra coisa, sempre falamos mal da Republica Popular Democrática da Coréia, mas que tal falarmos das ditaduras sanguinárias mantidas pelos Estados Unidos no mundo, com o apoio de países europeus, como Arábia Saudita e Egito?
Caros leitores,
Agradeço a vossa explicação mas creio que isto não fique por aqui.
Obrigado