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Archive for 16 de Novembro, 2010

Hoje,  a ACEP (Associação para a Cooperação entre os Povos) lança o livro-agenda perpétua “52 histórias”.

“Num livro ilustrado evocando uma agenda perpétua, ao longo de 52 semanas sucedem-se 52 histórias, rostos, direitos, geografias de coragem, dignidade, mas também de privação… e de injustiça.”

Dei o meu contributo  com a história da dissidente Myung-hee (que podem ler mais abaixo) e com a história dos três mosqueteiros de Bulenga.

Neste projecto participam:

Adelino Gomes, Adriano Gomes, Adriano Miranda, Alain Corbel, Alex Gozblau, Alexandra Lucas Coelho, Alexandra Prado Coelho, Alexandre Conceição, Alfonso Armada, Ana Cristina Pereira, Ana Dias Cordeiro, Ana Filipa Oliveira, Ana Grave, Anton Demisov, António Jorge Gonçalves, António Marujo, António Pedro Ferreira, Bernardo Carvalho, Carlos Narciso, Claire Malen, Daniel Blaufuks, Dylan Martinez, Eduardo Lobão, Enric Vives-Rubio, Faranaz Keshavjee, Fernanda Almeida, Fernando Jorge, Gonçalo Cunha de Sá, Helena Oliveira, Isabel Gorjão Santos, Isabella Balena, Javier Martinez, João Carlos Rosário, João Maio Pinto, João Paulo Baltazar, Jorge Gonçalves, Jorge Silva, José Milhazes, José Pedro Tomaz, Khaled Abdullah Ali Al Mahdi, Lina Lonet Delgado, Lúcia Crespo, Lucília Monteiro, Luís Castro, Luísa Meireles, Marcel Steger, Margarida Santos Lopes, Maria João Belchior, Maria Kowalski, Maria de Araújo Barbosa, Mariana Palavra, Marta Jorge, Miguel Carvalho, Nuno Ferreira Santos, Paola Rolletta, Patrick Arnoux, Paula Borges, Paulo Buchinho, Paulo Moura, Paulo Nuno Vicente, Paulo Ricca, Pedro Moita, Pedro Rosa Mendes, Philippe Matsas, Ricardo Alexandre, Rita Colaço, Rita Vaz da Silva, Rodrigo Saias, Rui Rasquinho, Sofia Branco, Sofia Lorena, Stefania Mascetti, Thierry Roge, Valter Vinagre, Victor Ângelo, Vincenzo Sassu.

O rio de Myung-hee

A minha aldeia é Chongju. Para viajar dentro do meu país é preciso ter uma autorização do governo. Sem ela, temos de ser muito espertos para evitar os guardas. Foi o que fiz quando fugi da Coreia do Norte para a China. Fugi pelo rio Tumen. Foi aí que aos 27 anos vi, pela primeira vez, o reflexo da minha dúvida: quem sou?

Myung-hee.

Um outro nome que protege quem ainda por lá ficou.

Treinada para fazer vénias diante do retrato de Kim Il-sung. E para sorrir se queria comer. Ou se não queria que lhe batessem com um pau.

A morte do “Grande Líder”, em 1994, acabou com as míseras duas rações diárias de arroz. A família subia às montanhas para colher raízes de plantas que misturavam com farinha de milho. Um reboco para tapar o estômago no país apresentado ao mundo como “o paraíso dos trabalhadores”.

Coreia do Norte: uma monarquia-socialista-comunista, onde o filho sucede ao pai. De Kim Il-sung ao “Querido Líder” Kim Jong-il, o testamento do medo dá fôlego à ditadura há mais de 60 anos.

O regime sobrevive à conta do policiamento de proximidade. Vizinhos que se controlam e denunciam para não serem denunciados. Sessões de censura pública. Um sistema que anula até pensamentos de dúvida. Os sussurros de que algo vai mal no reino dos Kim – se existem – correm sempre à cautela.

Myung-hee ouvia dizer que na China até os cães comiam arroz.

Desafiou a corrupta e também já mal-nutrida polícia e fugiu com mais dois amigos, por uma das fronteiras fluviais com a China. No rio Tumen, um dos amigos morreu afogado.

O rio Tumen.

Águas de fuga, morte e epifania.

Tive de continuar para arranjar trabalho na China. Durante um ano só trabalhei e comi. Enganaram-me. Nunca me pagaram. Diziam que iam contar às autoridades chinesas que eu estava ali. Há coisas que quero apagar da memória…Bateram-me muito. Fui vendida, traficada…fui  tratada como um animal… Sempre ouvi que Kim Il-sung era o maior líder do mundo e que estávamos a viver num paraíso, mas agora percebo que eram só mentiras. E nem dinheiro tinha para regressar. Fui novamente até ao rio Tumen, para cometer suicídio. Pensei que, morrendo, o meu corpo poderia flutuar até à minha cidade natal.

Foi aí que aos 27 anos vi, pela primeira vez, o reflexo da minha dúvida: quem sou?

Myung-hee.

O reflexo do rio devolveu-lhe a identidade.

Hoje vive na Coreia do Sul.

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