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Archive for 18 de Junho, 2007

O 13º falhado

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Acaba de sair a edição de Julho/Agosto da revista Foreign Policy, com o Índice 2007 dos Estados Falhados.
O Sudão aparece em primeiro lugar. A Coreia do Norte está em 13º lugar num ranking de 177 países, com base em 12 indicadores sociais, económicos, políticos e militares.
A lista foi ordenada segundo o grau de vulnerabilidade a conflitos internos e de deterioração social. Este relatório diz que em 2006 a Coreia do Norte optou por minar o seu caminho pela entrada no clube nuclear mundial.
Esta opção coloca este Estado na linha vermelha do falhanço.

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O que é que nessa altura a impediu de cometer suicídio?
Tinha deixado uma filha na Coreia do Norte e o rosto dela estava sempre a aparecer e questionei-me: para quê morrer? Deve existir algum lugar bom no mundo. Depois desse momento de desespero encontrei apoio numa igreja cristã que me arranjou casa para morar. Nessa altura consegui enviar uma carta para a minha família, subornando um guarda norte-coreano. Mais tarde a minha irmã também atravessou o rio e trouxe a minha filha que, na altura, tinha seis anos. Um dia, alguém fez uma denúncia à autoridades chinesas e fomos repatriadas para a Coreia do Norte. Fui para uma prisão e a minha filha para um orfanato. Não soube mais dela. Mas mais uma vez, através de um suborno, pago na China a um guarda-norte-coreano por um pastor cristão, consegui voltar à China um mês depois, mas sem fazer ideia de onde estava a minha filha.

Quando estava na China, relativamente segura, enviei novamente uma carta à minha irmã a perguntar pela minha filha. Soube depois que ela estava num orfanato a fazer todo o tipo de trabalhos, mal nutrida, suja e que esteve quase a morrer. Então, com a ajuda desse tal pastor cristão, os guardas norte-coreanos deixaram a minha família trazer a minha filha. Mas a minha mãe e a minha irmã foram obrigadas a ficar lá. Até hoje.

O que pensa agora de Kim Il-Sung e de Kim Jong Il?
Estou muito zangada e irritada porque muitas pessoas, como eu, sofreram ou estão a sofrer com as atrocidades cometidas em nome de Kim Il-Sung e Kim Jong-Il, mas ironicamente não os odeio. Tenho raiva por ter perdido quase 30 anos da minha vida enquanto ser humano. Agora, como cristã, não sei se Kim-Il Sung e Kim Jong-Il fizeram aquelas coisas intencionalmente ou se estavam a tentar fazer o melhor e aconteceu daquela maneira. É uma dúvida…

[Fim]

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Qual foi a rota que traçou para fugir à fome?

Apanhei um comboio da minha aldeia (no nordeste) até a uma cidade que faz fronteira com a China. Para viajar dentro do meu país é preciso ter uma autorização especial. Como não tinha tive de usar a inteligência para evitar os guardas.
Quando saí do comboio ainda andei cerca de 16 quilómetros a pé e depois atravessei o rio Yalu. Do outro lado da margem ficava uma cidade chinesa, onde trabalhei numa herdade. Nessa altura não planeava de todo vir para Seul. Só atravessei a fronteira para ganhar dinheiro, porque alguns amigos meus que já tinham estado na China diziam que lá até os cães comiam arroz, enquanto que eu só comia papas de milho.

Ao atravessar o rio com mais dois amigos, um deles morreu afogado porque o nível das águas estava muito elevado. Mas eu continuei com esse meu outro amigo Depois de atravessar o rio, fomos para a tal herdade onde assinei um contrato de um mês, para poder depois regressar à Coreia do Norte com dinheiro. No entanto, esse agricultor nunca me pagou porque sabia que eu era uma refugiada norte-coreana, por isso eu e o meu amigo fugimos dessa herdade e fomos para outra cidade trabalhar em restaurantes e quintas, durante um ano. Durante todo esse período nunca me pagaram, enganaram-me…durante um ano só trabalhei e comi. Voltei a fugir porque fui ameaçada…diziam que iam contar às autoridades chinesas que eu estava ali.
Há coisas que quero apagar da memória. Durante esse tempo bateram-me muito, fui vendida, traficada…

Estava tão desesperada por não ter dinheiro para regressar…fui tratada como um animal…quis matar-me várias vezes mas não consegui. Percebi as diferenças do nível de vida entre a China e a Coreia do Norte. Ouvi dizer sempre que Kim Il-Sung era o maior líder do mundo e que estávamos a viver num paraíso, mas agora percebo que eram só mentiras, o nível de vida na China é muito melhor do que na Coreia do Norte.

Fui até ao rio Yalu disposta a suicidar-me, porque pensava que se morresse o meu corpo ia até à minha cidade natal… mas não consegui fazê-lo. Nessa altura, pela primeira vez na vida, questionei-me: quem sou?…o que sou?

[continua]

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A fuga de Myung (I)

Myung Hee (nome fictício) era educadora de infância numa zona rural da Coreia do Norte.
Deixou de trabalhar quando veio a crise da fome porque não tinha forças para andar e trabalhar. O estômago ficou vazio.
Myung está agora na Coreia do Sul. Entrevistei-a em Seul. Ainda hoje fala a medo porque a mãe e a irmã continuam lá.
Esta é a primeira parte de uma entrevista a uma mulher norte-coreana que só questionou a própria identidade aos 27 anos, após a fuga do país dos Kim.

Porque fugiu da Coreia do Norte?
Tinha fome.
Até 1994 a comida era racionada. Tinhamos alimentos apenas duas vezes por dia, mas conseguíamos comer. Depois da morte de Kim Il-Sung, esse racionamento parou por completo. Não tínhamos qualquer fonte de alimento, por isso subíamos às montanhas para arranjar nem que fossem raízes de plantas, que misturávamos com farinha de milho para fazer uma papa. Mesmo que quisessemos comprar alguma coisa, não tínhamos dinheiro. Por isso tínhamos que vender a nossa mobília e lençóis…vendíamos qualquer coisa só para ter algum dinheiro e comprar mais farinha de milho.

Era educadora de infância lá. Numa das visitas que fiz a uma creche de Pyongyang reparei que aos três anos as crianças estão sempre a sorrir. Nunca vi uma birra…
É natural. As crianças são bem treinadas para fazer vénias diante dos retratos de Kim Il-Sung e Kim Jong-Il e sorrir. São bem treinadas para sorrir, principalmente quando são visitadas por turistas. Se não o fizerem são depois castigados e ficam sem comida.

Também sofreu castigos desses em criança?
Claro, muitos. Nós tínhamos sessões de crítica, mas como não conseguia seguir ordens a toda a hora, era castigada. Em criança, se não sorrisse, obrigavam-me a estar de braços levantados durante quase uma hora como castigo, ou então punham-me fora da escola, para não estar junto dos outros e sentir-me miserável. Outras vezes ia para uma espécie de palanque com todos os miúdos à volta a culpar-me. Outra vezes batiam-me com um pau…Quando cresci, tinha medo daquelas grandes sessões de censura, porque todas as pessoas ficavam a saber que eu era de uma condição baixa.

Alguma vez soube o que significava a palavra escolher?
Nem por sombras, nem sabia que existia essa palavra porque não havia liberdade de escolha. Nunca pensei nisso, nem tinha identidade. Não sabia quem era, o que era.

[continua]

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Yongbyon

[Foto de 1992 do site ABC News

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A agência russa Interfax escreve que, no próximo mês de Julho, a Coreia do Norte deverá encerrar o reactor nuclear de Yongbyon. A notícia vem de uma fonte norte-coreana não identificada, sedeada em Pequim.

A ser verdade, Pyongyang honra a palavra para o primeiro passo rumo à desnuclearização da península.

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