Testemunho do Embaixador Português em Seul
Abril 4, 2008 por rcolaco
[O embaixador Henrique Silveira Borges, o segundo a contar da esquerda, ao lado do presidente sul-coreano, Lee Myung-bak. Foto do almoço na Câmara de Comércio da UE na Coreia, durante a presidência portuguesa da União Europeia]

Iniciei as minhas funções como Embaixador de Portugal em Seul em 9 de Março de 2007.
Durante os primeiros meses, concentrei-me na preparação do exercício local da presidência portuguesa da União Europeia, que Portugal assumiu a partir de 1 de Julho de 2007.
Como em muitos outros países do mundo fora da Europa Comunitária em que Portugal tem Embaixadas residentes, o exercício da presidência envolve um esforço exigente e rigoroso de coordenação de posições dos Estados Membros face às principais questões da agenda comunitária, e aos desenvolvimentos que têm ou podem ter incidência no relacionamento entre a UE e o país em causa. A presidência envolve assim uma constante acção de influência (ou de lobbying, se se preferir), que a presidência é chamada a exercer em nome de todos os Estados Membros em relação àquelas questões e desenvolvimentos.
Envolve ainda um conjunto de acções visando assegurar a representação da UE junto não só das autoridades locais mas também de diversas instituições da sociedade civil (ex: conferências em Universidades; outras iniciativas e eventos em que a UE é chamada a intervir ou a estar representada; concessão de entrevistas aos órgãos de comunicação).
Assim sucedeu também durante o período da nossa presidência na Coreia. As questões que mais exigiram esforços de coordenação da nossa parte tiveram a ver com os desenvolvimentos e as negociações relacionadas com a Coreia do Norte e as relações entre a Coreia do Sul e a Coreia do Norte. Num período marcado por uma intensa actividade política e diplomática – em que se destacou a II Cimeira Inter-Coreana, realizada em Pyongyang, de 2 a 4 de Outubro de 2007 – a União concluiu um exercício de coordenação e articulação de posições e de acções, destinado a habilitá-la a reagir prontamente aos desenvolvimentos na Península Coreana.
Em conjunto com a Delegação da Comissão Europeia, acompanhámos também as negociações – realizadas alternadamente em Bruxelas e em Seul – relativas ao projecto de um Acordo de Comércio Livre entre a Coreia e a UE. Durante a presidência portuguesa registaram-se progressos muito significativos nas negociações, que continuam ainda, e que se espera possam concluir durante o ano corrente por um bom acordo para ambas as partes. Para se ter uma ideia da importância deste acordo, bastará referir que a UE constitui no seu conjunto o investidor estrangeiro mais importante na Coreia do Sul e é o seu 2º maior mercado. Para a União, a Coreia (a 13ª economia do mundo, é bom não esquecer) é o 8º maior parceiro comercial em todo o mundo e o 4º maior parceiro comercial fora da Europa.
Como referi, a presidência portuguesa exerceu ainda importantes acções de lobbying junto das autoridades coreanas relacionadas designadamente com o ambiente e as alterações climáticas (cujas consequências afectam também vivamente a Coreia) e com os Direitos Humanos (coordenação de posições em relação à situação dos DH na Coreia do Norte).
Terminada a presidência portuguesa, a minha missão passou a concentrar-se naturalmente naquilo que constitui afinal a vocação principal das nossas Embaixadas: o desenvolvimento das relações bilaterais.
Passos significativos foram já dados neste sentido, durante as missões dos meus antecessores, mas muito há ainda a fazer.
Ligam os dois países um conjunto de acordos em praticamente todas as áreas com relevo para as relações bilaterais, desde a área política até às áreas comercial e económica, e passando também pela área cultural. A cooperação entre os dois países no quadro das organizações internacionais de que ambos são membros tem sido excelente, nomeadamente no tocante à candidatura de Portugal ao Conselho de Segurança das Nações Unidos no biénio 2011-12. Os dois países têm-se apoiado reciprocamente nas candidaturas que têm apresentado a vários organismos internacionais.
Para países cuja posição geográfica é tão distante, o intercâmbio de visitas de delegações oficiais a vários níveis tem sido mesmo assim significativo. Para dar um exemplo ainda recente, em Junho de 2006, a então Primeira Ministra da Coreia do Sul, Sra. Han Myeong Sook, realizou uma visita oficial ao nosso País.
Uma certa simetria na situação geográfica de Portugal – no extremo Ocidental do continente europeu – e da Coreia – na Ásia Oriental, praticamente sobre a mesma latitude, aliada a uma forte identidade nacional e a um apego tenaz à independência, são-me frequentemente referidos pelos meus interlocutores coreanos como factores que explicam sintonias e empatias inesperadas entre os dois povos, face à distância que os separa. Segundo historiadores coreanos, os portugueses terão sido os primeiros ocidentais a aportar à Coreia no início do século XVII. Acaba aliás de se concretizar a geminação entre a cidade no Sul da Coreia – Tongyeong – onde desembarcou o comerciante português João Mendes, e Vila do Bispo, no Algarve.
São legados que julgo significativos, e que importa explorar. Evidentemente sem alimentar expectativas irrealistas e desajustadas, dados os condicionalismos da geografia e também dos espaços económicos e culturais distintos em que os dois países se inserem.
Ao nível político haverá que dar seguimento aos contactos e visitas já efectuadas, e pelo menos manter o seu ritmo.
Aos nível económico e comercial, julgo que a pedra de toque residirá em reforçar a motivação e o interesse dos nossos exportadores e empresários por uma área do mundo – o Nordeste Asiático – onde se situam três das economias mais dinâmicas e competitivas, não só no presente como no futuro previsível: a China, o Japão e a Coreia. Duas delas – o Japão e a Coreia - são já economias desenvolvidas, e ocupam posições de liderança em sectores tecnológicos de vanguarda.
A economia coreana tem já marcas globais, com posições destacadas em praticamente todas as regiões do mundo, e também presentes em Portugal, naturalmente. Bastará referir nomes como a Samsung, a Hyundai-Kia ou a LG, para mencionar apenas as mais conhecidas.
Cabe-nos pois a nós fazer um esforço para estarmos mais presentes numa área do mundo que está sem dúvida entre as mais dinâmicas, e na qual muitos vêem mesmo o futuro da economia mundial no século XXI.
Estão a ser feitos esforços nesse sentido, e julgo existirem boas perspectivas por exemplo para as exportações de vinhos portugueses, num mercado que tem conhecido um enorme crescimento nos últimos anos. É apenas um exemplo entre outros possíveis, evidentemente.
Há igualmente dados recentes positivos no desenvolvimento das relações comerciais e das exportações portuguesas para a Coreia: em 2007, as exportações portuguesas para a Coreia atingiram o montante de 48.920 milhões de euros, quando em 2006 se tinham cifrado em 38.026 milhões de euros, o que representou um aumento de 28.6%. Na região da Ásia, o mercado coreano situou-se à frente por exemplo de um grande país como é a Índia, para o qual Portugal exportou em 2007 mercadorias no valor de 31.882 milhões de euros.
Um domínio em que há perspectivas interessantes de cooperação é o das tecnologias da informação, em que a Coreia é líder. Empresas dos dois países tiveram ocasião de manter contactos no final do ano passado no nosso País, tendo sido identificadas boas oportunidades de cooperação.
Ainda nesta área, a Coreia acolhe em Junho deste ano uma reunião da OCDE sobre o futuro da Internet, na qual a delegação portuguesa será chefiada pelo Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Prof. Mariano Gago.
Julgo que são de facto desenvolvimentos promissores que há que consolidar.
Um outro dado que julgo interessante, pelo potencial que encerra para o desenvolvimento das nossas relações, tem a ver com o turismo: nos últimos anos, a Coreia do Sul tem sido um dos países que a nível mundial mais tem gasto com o turismo. Em 2006 por exemplo, as despesas realizadas pelos turistas coreanos fora do país traduziram-se num aumento em termos percentuais de 156%, tornando a Coreia o 10% país a nível mundial como mercado emissor de turistas. Nos últimos anos registou-se já um aumento dos turistas sul coreanos em Portugal, mas julgo que também a este respeito mais se poderá fazer para promover Portugal como destino turístico.
Para além do clima e da gastronomia naturalmente, dois outros aspectos poderão contribuir para reforçar o apelo turístico do nosso País junto do público coreano: as excelentes condições para a prática do golfe (dada a popularidade deste desporto na Coreia) e a circunstância de em Portugal a religião católica ser largamente maioritária.
Com efeito, a par das Filipinas e de Timor-Leste, a Coreia é o país asiático onde o cristianismo goza de maior popularidade: estima-se que cerca de 25% da população adere actualmente a uma ou outra variante do cristianismo, sendo o catolicismo a que conhece a maior expansão
Também no sector cultural e de difusão da língua portuguesa, muito há a fazer: duas Universidades – em Seul e Busan, a segunda cidade do país – existem já departamentos de Português frequentados por centenas de estudantes coreanos.
Encontram-se em fase de finalização dois protocolos entre o Instituto Camões e aquelas Universidades com vista a dar melhores condições ao ensino e à difusão da língua portuguesa.
Por outro lado, e mercê das sintonias e empatias inesperadas que existem entre os dois povos, a vinda de músicos portugueses à Coreia continuará será sem dúvida a ser bem acolhida, como aqui foi no ano passado o guitarrista António Chainho, ou em anos anteriores as fadistas Kátia Guerreiro e Mariza.
Finalmente, julgo que haverá que explorar as oportunidades criadas pela pertença de ambos os países a organizações como a Aliança das Civilizações ou a Comunidade das Democracias para de forma quase informal desenvolver contactos entre dirigentes e personalidades de relevo na sociedade portuguesa e na sociedade coreana, e para estreitar mais o relacionamento bilateral. No âmbito de uma reunião da Aliança das Civilizações, que se realizou na Ilha de Jeju, ao Sul da Coreia, esteve aqui muito recentemente o ex-Presidente Jorge Sampaio, Alto Representante das Nações Unidas para a Aliança das Civilizações.
Com a eleição do Presidente Lee Myung-bak em Dezembro do ano passado, a Coreia do Sul iniciou um novo ciclo político, que poderá ter consequências importantes, tanto no plano do desenvolvimento económico do país, como no plano das relações com a Coreia do Norte, que os novos responsáveis já declararam desejar que obedeçam a exigências de maior reciprocidade e rigor, designadamente no domínio do respeito pelos direitos humanos.
Estou também acreditado como Embaixador junto da Coreia do Norte, não tendo ainda tido oportunidade de ali apresentar credenciais (dada nomeadamente a agenda muito intensa da presidência portuguesa, que me reteve todo o tempo em Seul). Mas espero fazê-lo logo que receba uma indicação nesse sentido da parte das autoridades norte-coreanas.
Nos próximos anos, a Coreia do Sul e a Península Coreana enfrentarão desafios que podem revelar-se decisivos do ponto de vista não só do seu desenvolvimento, mas também dos pontos de vista político e da segurança regional e internacional.
Assim, para além do empenho que colocarei no desenvolvimento das relações bilaterais – primeira razão de ser da Embaixada – espero poder também testemunhar um novo ciclo político, que desejo contribua para o reforço da paz e da prosperidade na Península Coreana.
O Embaixador de Portugal em Seul,
Henrique Silveira Borges
[Fotos gentilmente cedidas pelo Embaixador Henrique Silveira Borges]

Depois de alcançar tão significativa vitória com este também significativo testemunho, e logo do sr. Embaixador, e na sequência dessa vitória outra que foi a sua premiada reportagem na Coreia do Norte,a menina arrisca-se a ser convocada para a tão desejada mediação que faça trazer para a luz da Civilização o tão martirizado povo norte-coreano.
Já estou a vê-la de malas aviadas a ser recebida pelo sr. embaixador nas vésperas do Tão Desejado Dia em que entrar na Coreia do Norte será tão simples como entrar em Santa Apolónia num qualquer comboio estacionado na Linha 1…Norte.
Êxitos.
josé delgado